gato no colo

O autismo e o bem que fazem os animais

A história da garota inglesa Iris Grace Halmshaw e sua gata Thula conquistou o mundo. Diagnosticada dentro do espectro do autismo com um ano de idade, a garotinha mostrava dificuldades para falar e até mesmo sorrir. O cenário se transformou alguns anos depois, quando, aos seis, Iris conheceu a gatinha Thula, um filhote de Maine Coon, como conta sua mãe no livro Iris Grace. Em uma noite, após longas horas e 20 leituras do mesmo livro, Iris ainda estava acordada e a família cansada com o longo ritual de sono. Então, algo aconteceu.

“Ela [Thula] estava alerta: alguma coisa havia chamado sua atenção (…) ela subiu até o quarto de Iris e pulou na cama. Aconchegou-se próxima de Iris, ignorando que a menina estava chorando, e começou a se limpar, lambendo as patas e as esfregando contra as orelhas. Quase que imediatamente, o humor de Iris mudou. Ela começou a rir das grandes orelhas de Thula, que se dobravam para frente e para trás (…) Iris relaxou e largou o livro. Ao vislumbrar a oportunidade, saí de mansinho do quarto e esperei ao pé da escada, aguardando o inevitável choro que me levaria de volta ao seu lado. Só havia silêncio (…) esperei o máximo que pude com esse suspense, voltei ao quarto na ponta dos pés, e espiei. Iris havia adormecido com a gatinha ao seu lado, viradas uma para a outra. A mão de Iris repousava sobre os ombros de Thula, e eu conseguia ouvir um gentil ronronar.” [Tradução livre do original em inglês.]

Desde então, as duas são inseparáveis, e a gata se faz presente inclusive nos momentos em que Iris se dedica à pintura, uma de suas atividades que mais chama a atenção. Mas, como funciona a relação entre o animal e as crianças dentro do espectro do autismo, por exemplo, que afeta a forma como se comunicam com o mundo exterior?

“Sabemos que existem mudanças baseadas em mecanismos neuropsicológicos, que tornam maior a aptidão social e reduzem fatores de estresse ou situações negativas”, explica a Doutora em Psicologia e médica veterinária Ceres Faraco e professora da UniRitter. “Existem dados que mostram como o animal pode funcionar como ‘amortecedor’ para a ansiedade e estresse, diminuindo a pressão sanguínea, frequência cardíaca e respiratória. Isso se deve a alterações metabólicas, por ação de neurohormônios no corpo, que facilitam a expressão de comportamento social. Todos os mamíferos possuem essas possibilidades e, com isto, a criança autista pode ter uma via de reconexão com o mundo externo. Cabe salientar que, as pessoas com esta síndrome vivem em isolamento, pois são refratárias aos estímulos externos.”

O autismo é parte de um grande grupo de desordens do desenvolvimento e se manifesta em quadros muito variáveis, explica a Drª Ceres. “Existe, entre outros, a Síndrome de Asperger [esta tem características específicas, pois, em geral, não há retardo mental]. A síndrome autista está sempre vinculada a transtornos na comunicação e no relacionamento social. São pessoas que podem não dominar a linguagem ou o uso da imaginação e criação simbólica, procurando, por outro lado, padrões e repetições. Crianças com este espectro inicialmente têm muita dificuldade de responder aos estímulos, e podem ser muito ansiosas diante de aproximações com contato físico. O animal, como os cães e gatos, é uma ponte comunicativa. Estabelece-se um vínculo muito intenso do autista com o animal, e esta é a oportunidade para que se possa reconhecer aqueles resíduos comunicativos, e, com isso, potencializar outras formas de comunicação.”

Em sua experiência, a Drª Ceres pôde perceber que, ao longo dos anos, as crianças com as quais trabalhou se tornaram muito mais comunicativas entre elas, estabelecendo comunicação com grupos dos quais não interagiam anteriormente. “Tornaram-se menos ansiosas e demonstraram habilidades, como trazer experiências para dentro da sala de aula, recordando acontecimentos através de desenhos, por exemplo, e expressando o nome de animais, se interessando pelo mundo lá fora. Trata-se de um progresso que permanece como parte do desenvolvimento delas. O que falta agora, para esse campo, é produzir cada vez mais evidências científicas, para que não haja dúvidas sobre a eficácia das terapias mediadas por animais.”

“É importante também salientar a necessidade de cuidado para que o bem-estar do animal que participa dessas atividades seja assegurado. As atividades devem ser positivas para todos os envolvidos”, finaliza a especialista.

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E aproveite para ver a Iris e a Thula, sua amiga inseparável.

 

Por André Spera
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