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Dia Mundial das Aves: o que é preciso saber para criar uma ave de companhia com responsabilidade

No dia 5 de outubro, o Dia Mundial das Aves chama a atenção para a importância desses animais e para a necessidade de ampliar o conhecimento sobre sua criação e bem-estar. Para muitas pessoas, as aves também fazem parte da rotina como animais de companhia, estabelecendo vínculos e ocupando um espaço cada vez mais presente nos lares.

Mas oferecer uma vida saudável a uma ave vai muito além de garantir alimentação e um local para ela viver. Cada espécie tem características, comportamentos e necessidades específicas, e conhecer essas particularidades é fundamental para uma criação responsável.

Para falar sobre o assunto, o Portal Melhores Amigos conversou com César Wenceslau, criador, médico veterinário e juiz internacional de Exposições de Canários de Porte. Diretor de Canários de Porte da Federação Ornitológica do Brasil (FOB), ele explica quais são os principais cuidados, o que deve ser considerado antes de escolher uma ave como companhia e como proporcionar condições adequadas para o seu bem-estar.

Perguntas para a FOB

  1. Quais são as principais espécies de aves mantidas como animais de companhia no Brasil? Há alguma tendência ou mudança na preferência dos criadores nos últimos anos?

As principais espécies mantidas como animais de companhia no Brasil dividem-se em três grupos: as aves domésticas — como o canário doméstico (popularmente conhecido como canário belga ou do reino), periquito australiano, calopsita, mandarim e diamante-de-gould; as aves exóticas — como cacatuas, rosellas e papagaio-do-congo; e as aves nativas (espécies brasileiras), que só podem ser mantidas se provenientes de criadouros comerciais autorizados pelo órgão ambiental competente, acompanhadas de Nota Fiscal e identificação individual. Em se tratando das espécies mais populares como animais de companhia, observamos uma busca crescente por espécies de psitacídeos de pequeno e médio porte (com destaque para calopsitas e agapornis), motivada pelo desejo de tutores por aves de pequeno porte, porém interativas, sociáveis e que se adaptem bem ao espaço e à rotina de ambientes urbanos (sobretudo apartamentos). Além disso, há um aumento expressivo na conscientização por adquirir exclusivamente animais de origem legalizada e nascidos em criadouros responsáveis.

  1. O que uma pessoa deve considerar antes de escolher uma ave como animal de companhia?

As aves, assim como qualquer animal de estimação, demandam principalmente de tempo para receberem os cuidados adequados. Apesar de serem bastante independentes, e como as espécies mais populares de aves possuem hábitos diurnos, a disponibilidade de tempo durante o dia é o principal fator a ser levado em consideração. Os cuidados diários com alimentação, troca de água, limpeza do ambiente onde a ave é mantida e tempo para interagir e observar o animal são aspectos fundamentais que devem ser avaliados antes de se pensar em ter uma ave como animal de companhia. As aves também se adaptam bastante à rotina, por isso, é importante estabelecer uma agenda de cuidado com as aves.

Também é fundamental considerar a expectativa de vida do animal — que em algumas espécies de psitacídeos pode superar dezenas de anos  —, a tolerância a ruídos no ambiente familiar e a disposição financeira para manter uma nutrição de alta qualidade e consultas periódicas com médicos-veterinários especializados.

  1. Quais são os principais cuidados que uma ave precisa para ter qualidade de vida? Podemos falar de alimentação, espaço, higiene, estímulos e acompanhamento veterinário?

A qualidade de vida de uma ave fundamenta-se em quatro pilares de manejo e saúde:

  • Nutrição e hidratação: Oferecer dieta balanceada e específica para a espécie e fase de vida, além de água limpa e fresca diariamente.
  • 2. Ambiente físico: envolve fornecer condições adequadas de espaço, temperatura, ventilação, umidade, tipo de poleiro e piso, abrigo, intensidade de luz e o nível de ruído.
  • 3. Saúde e integridade física: se inicia com a higiene, proporcionando um ambiente seguro (que minimize a possibilidade de acidentes), limpo, acompanhado de um manejo que previna a ocorrência de doenças, e quando necessário, buscar por tratamentos e cuidados rápidos.
  • 4. Estímulos, manejo comportamental e interações: o ambiente de um modo geral deve permitir que o animal expresse seus comportamentos naturais, avaliando-se como a ave interage com o meio, com outros animais, com objetos e com os seres humanos. Estimular o engajamento e atividades através de enriquecimento ambiental para evitar o tédio também é muito importante. Por outro lado, aves podem apresentar comportamento de “Neofobia”, ou seja, podem estranhar tudo aquilo que é novo, diferente. Por este motivo, o ideal é que a introdução de novos objetos (brinquedos, comedouros, etc), novas aves, ou até mesmo novas rotinas sejam feitas através de uma transição gradual, evitando estresse e problemas nesta fase de adaptação. Este comportamento de “Neofobia” reforça a necessidade de se possuir uma rotina bem estabelecida de cuidados com as aves. É importante destacar que as aves, de um modo geral, enxergam muito bem, e as vezes, podem reagir de forma inesperada. Uma simples mudança na cor do bebedouro pode fazer com que a ave deixe de beber água por receio daquele “novo objeto”. A colocação de um novo alimento (por exemplo: frutas ou verduras) também pode desencadear uma reação inicial negativa, com recusa do alimento ou até demonstração de medo diante “do desconhecido”, porém, após uma adaptação adequada, a ave passa a consumir o novo alimento sem nenhum problema.

Por fim, o acompanhamento veterinário periódico é fundamental. Um veterinário especializado, além de avaliar a saúde, poderá orientar adequadamente sobre todas as necessidades e demandas para aquela espécie de ave. Da mesma forma, quando adquirida diretamente de um criador responsável, estas orientações também serão fornecidas.

  1. Muitas pessoas ainda imaginam que cuidar de uma ave é mais simples do que cuidar de um cão ou gato. Quais são os principais equívocos sobre isso?

Antes de tudo, é necessário conhecer as necessidades, hábitos, comportamentos e peculiaridades da espécie de ave que estamos dispostos a eleger como companhia para saber se podemos atender às suas demandas. Desde que recebam os cuidados necessários, as aves são bastante independentes, e por isso existe a ideia de que cuidar de uma ave é mais simples do que cuidar de um cão ou gato. Sob esta ótica, essa é uma premissa válida. Entretanto, o principal equívoco é achar que esta independência dispensa atenção contínua. Quem possui uma ave deve estar sempre atento, observando diariamente o seu comportamento. Como muitas das espécies, quando na natureza, são predadas por outros animais, as aves têm o comportamento instintivo de mascarar sinais de doença até estágios avançados. Da mesma forma, em ambiente doméstico, qualquer pequena alteração comportamental pode significar um grande problema, e que, devido ao seu rápido metabolismo, é necessário uma intervenção rápida, como recorrer à um médico veterinário especializado.

 

Canário de Porte Yorkshire Criador Luiz Fernando Albuquerque

Crédito: Canário de Porte Yorkshire
Criador Luiz Fernando Albuquerque

  1. As aves também desenvolvem vínculos e interagem com as pessoas. Quais comportamentos demonstram que uma ave está bem adaptada e recebendo os cuidados necessários?

As aves reconhecem pessoas, se adaptam perfeitamente às rotinas e podem aprender muitos “truques”. Algumas espécies, como os papagaios cinzentos do Congo, possuem inteligência cognitiva equivalente à uma criança entre 3 a 5 anos. Calopsitas facilmente aprendem a “assobiar” canções, e até mesmo periquitos australianos podem ser ensinados a falar. Claro, isso sempre está relacionado à características individuais (alguns indivíduos possuem maior predisposição do que outros) e ao estímulo e ambiente em que a ave é mantida. Uma ave saudável deve estar sempre ativa, curiosa, atenta ao ambiente ao seu redor, mas ao mesmo tempo mostrando-se calma, plenamente adaptada à sua rotina e aos seus tutores, e expressando os comportamentos esperados para a sua espécie e fase de vida (com períodos de atividade e expressão de comportamentos naturais, momentos de limpeza e autocuidado, alimentação e descanso).

  1. O ambiente influencia diretamente o bem-estar das aves. O que não pode faltar em um espaço adequado para esses animais?

O ambiente é fundamental para qualquer espécie animal. Um ambiente adequado, que proporcione tudo o que a ave necessita, fazendo com que esta possa expressar seu comportamento natural (espaço físico adequado, suficiente para voar e esticar as asas; poleiros adequados, preferencialmente de diferentes diâmetros) é fundamental para a saúde, bem-estar e longevidade de uma ave – e quando falamos em longevidade, precisamos destacar algumas espécies de psitacídeos, como papagaios e araras, que podem ultrapassar 60 a 80 anos de vida. Quando pensamos em garantia do bem-estar animal, é importante avaliar diretamente quatro principais aspectos (tecnicamente chamados de domínios físicos/funcionais), que podem ser observados e medidos, e que influenciam diretamente um quinto domínio.

  • 1. Nutrição e hidratação: Vai além de apenas mitigar a fome. Avalia o balanço hídrico, a qualidade dos nutrientes disponíveis e se a alimentação gera saciedade e prazer.
  • 2. Ambiente físico: Examina as condições do espaço onde o animal vive, como conforto térmico (temperatura, ventilação, umidade), tipo de piso, intensidade de luz e o nível de ruído, visando promover conforto físico. Também é fundamental pensarmos em segurança: somente fornecer comedouros, bebedouros e poleiros adequados; brinquedos e materiais para estímulos comportamentais e cognitivos devem ser atóxicos; manutenção das aves em locais com portas e janelas teladas; e travas de segurança contra fugas e que impeçam a entrada de predadores.
  • 3. Saúde e integridade física: Abrange a prevenção de doenças, ausência de lesões, manejo profilático e tratamentos rápidos. O objetivo prático é gerar sensação de vigor e boa forma física.
  • 4. Interações comportamentais: Avalia o quanto o ambiente permite que o animal expresse seus comportamentos naturais e como ele interage com o meio, com outros animais e com os seres humanos. Estimula o engajamento através de enriquecimento ambiental para evitar o tédio.
  • 5. Estado mental ou afetivo: É o resultado de todos os anteriores. Como não se pode perguntar diretamente o que o animal sente, a ciência mapeia as respostas dos domínios físicos para inferir o estado psicológico. O foco é mitigar afetos negativos (como medo, pânico, tédio e angústia) e ativamente promover afetos positivos (como calma, curiosidade, contentamento e afeto).

Geralmente em poucos minutos de observação, veterinários especializados e criadores experientes podem inferir o estado geral de uma ave, que está diretamente relacionado a todos estes fatores acima mencionados, apenas com base da observação de seu comportamento.

  1. Quais são os sinais de alerta que podem indicar que uma ave está doente, estressada ou passando por algum problema de bem-estar?

As aves costumam ser bastante ativas durante o dia. O principal sinal de alerta é a ave se tornar menos ativa, ficando apática e prostrada. Manter as penas do corpo arrepiadas ou eriçadas, olhos entreabertos ou fechados, sinais de sonolência durante o dia, ou sinais de dificuldade respiratória também são sinais de alerta. Além disso, quem possui uma ave deve estar sempre atento às fezes do animal – esta observação diária pode trazer muitas informações sobre o estado de saúde da ave. Falhas e alterações de plumagem também podem indicar algum problema na saúde das aves (desde ectoparasitas, passando por problemas nutricionais e também podem indicar estresse e automutilação).

Crédito da Foto: PLumasCalopsita Opalina Cinza

Crédito da foto: Plumas/ Criador Berilo S Brum

 

  1. Qual é a importância do acompanhamento de um médico-veterinário especializado em aves?

Como a maioria das aves de companhia não passa por processos vacinais anuais como ocorre com cães e gatos, as consultas veterinárias de rotina costumam ser negligenciadas. Quando um animal está saudável, dificilmente o tutor pensa em buscar orientação junto à um profissional especializado. O acompanhamento periódico por um especialista permite identificar precocemente alterações subclínicas — como a obesidade, problema bastante frequente em psitacídeos, decorrente de dietas inadequadas — corrigindo eventuais falhas de manejo precocemente, permitindo agir preventivamente em muitas questões que podem levar ao comprometimento do quadro da saúde da ave, especialmente quando se considera o metabolismo acelerado dessas espécies.

  1. Para quem pretende adquirir uma ave, quais cuidados devem ser tomados para garantir que o animal tenha procedência legal e seja adquirido de forma responsável?

As aves representam um grupo vasto com mais de 5 mil espécies. O primeiro passo é entender que existem diferentes “exigências legais” para os diferentes grupos de aves. As aves domésticas, que incluem os canários domésticos, calopsitas, periquitos australianos, mandarins e diamantes de gould, possuem as mesmas exigências de se possuir um cão ou gato: não há necessidade de autorização de IBAMA nem necessidade de Nota Fiscal. Para espécies de aves nativas (espécies brasileiras), devem obrigatoriamente ser adquiridas junto a um criador comercial ou loja que tenha autorização do IBAMA para realizar esta atividade, e a ave deve possuir algum método de identificação inviolável (anilha, microchip, etc) e também uma Nota Fiscal certificando sua procedência.

  1. Qual é a importância da criação responsável de aves para combater o comércio ilegal e o tráfico de animais silvestres?

A criação responsável, feita de forma legal e organizada, é uma importante ferramenta de combate ao tráfico. A criação legalizada e organizada supre a demanda de pessoas que desejam ter aves de companhia com animais nascidos em cativeiro, devidamente anilhados e rastreáveis, inibindo diretamente a captura ilegal na natureza. Animais nascidos em criadores legalizados e responsáveis possuem métodos confiáveis e rastreáveis de identificação individual – geralmente feito com anilhas invioláveis (equivalente ao “RG” da ave, colocada na pata das aves nos seus primeiros dias de vida, e que contém os dados do criador, a identificação individual da ave, ano de nascimento, entre outras informações). Quando feita da forma correta, é uma atividade extremamente controlada e com enorme rastreabilidade. Ainda, a criação “ex-situ”, ou seja, sob cuidades humanos, também é uma importante ferramenta de conservação, inclusive recomendada pela CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção) da qual o Brasil é signatário. Diversas espécies atualmente só existem graças aos esforços de criadores. Podemos citar o caso do Mutum do Nordestes ou Mutum de Alagoas (nome científico: Pauxi mitu), extinto na natureza, mas mantido por criadores, que hoje contribuem para viabilizar projetos de reintrodução em seu ambiente natural.

  1. A FOB trabalha com orientação e formação de criadores. Quais são os principais conhecimentos que um criador iniciante precisa adquirir antes de começar uma criação?

A Federação Ornitológica do Brasil é uma associação sem fins lucrativos, composta por clubes e associações regionais de criadores de aves de todo o Brasil, que têm como objetivo realizar um intenso trabalho de orientação técnica para criadores de aves domésticas e exóticas, além de promover eventos e realizar a divulgação sobre a criação legalizada e tecnicamente correta de aves em ambiente doméstico. A FOB possui um vasto material de divulgação e orientação sobre as diferentes espécies criadas por seus associados, e grande parte deste material é público, podendo ser acessado pelo site ou nos canais oficiais da FOB nas redes sociais (Facebook, Instagram, Youtube). Quando existe a vontade de se tornar um criador, deve-se primeiramente buscar conhecimento. Para isso, o ideal é buscar um clube ou associação regional para se tornar um associado (é possível buscar os clubes através do site da FOB), e com isso, será possível receber orientações e acompanhamento direto, participar de exposições, adquirir anilhas de identificação para as aves nascidas no seu criadouro, e ter contato com outros criadores de sua região. Atualmente, a FOB representa mais de 10 mil criadores de aves domésticas espalhados por todo o Brasil.

  1. Para finalizar, qual mensagem a FOB gostaria de deixar para as pessoas neste Dia Mundial das Aves sobre respeito, cuidado e responsabilidade com esses animais?

Neste Dia Mundial das Aves, a Federação Ornitológica do Brasil (FOB) reforça que admirar e conviver com as aves é um privilégio que traz consigo a responsabilidade pela busca de conhecimento técnico e, sobretudo, do respeito à vida. As aves encantam por suas cores, canto e inteligência, mas seu bem-estar integral depende do compromisso diário do tutor com os cuidados nutricionais, sanitários e comportamentais. Celebrar esta data é dizer NÃO ao tráfico de animais e SIM à posse e à criação ética, legal e responsável. Quando optamos por animais de origem legal, mantemos os cuidados necessários e acompanhamento veterinário em dia, garantimos não apenas a saúde dos nossos companheiros alados, mas também colaboramos com a preservação da biodiversidade e a conservação das espécies. Criar com responsabilidade é a mais alta forma de respeitar as aves.

 

Por Cesar Garcia Capel Wenceslau, médico veterinário, diretor de Canários de Porte da FOB e juiz de Canários de Porte pela OBJO – Ordem Brasileira de Juízes de Ornitologia e OMJ – Ordem Mundial de Juízes de Ornitologia

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